| Cidade histórica de Diamantina - Minas Gerais |
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+ Publicidade Cidade histórica de Diamantina - Minas Gerais
Não eram estrelas que brilhavam no céu noturno de uma porção caprichosa da Serra do Espinhaço. Eram os diamantes do Tijuco, refletidos lá em cima, tamanha a quantidade existente no leito dos rios. Um mar de estrelas, um palco distante... Sua história, assim como suas preciosas pedras, foram lapidadas pelo suor, pelo fausto e pela ambição. Esta é Diamantina, terra de Chica e JK. A cidade fica na borda do Espinhaço, praticamente dividindo as bacias do rio São Francisco e do rio Jequitinhonha. É um lugar diferente, isolado e por isso mesmo ainda mais fascinante. Despontou bem mais ao norte, distante dos tradicionais centros auríferos do séc. XVIII. Os desbravadores chegaram em busca de ouro, mas não demorou para que descobrissem que a vocação daquela terra era outra. Uma vocação que consumiu milhões de anos da natureza e presenteou o homem com uma verdadeira preciosidade. A viagem pela estrada até Diamantina é reveladora e muito agradável. Até as montanhas são diferentes. As rochas brotam do solo nuas e em profusão, pontilhando a paisagem e formando mosaicos. Eis que do nada surge o antigo Arraial do Tijuco, com suas igrejas, seu casario e suas narrativas surpreendentes de uma era inesquecível, povoada de personagens curiosos. Parece mais um presépio incrustrado na rocha bruta das montanhas que o cercam. Neste presépio reinou, em meados do séc. XVIII, Chica da Silva, a escrava que virou rainha. Na qualidade de amante do contratador - que detinha a concessão real para explorar as lavras diamantíferas - mandava e desmandava na cidade. Está aí uma das histórias mais deliciosas de Minas Gerais, por vezes transformada em caricatura da emergente e complexa sociedade que se estabeleceu na província nos anos setecentos. Diamantina é destino obrigatório no amplo circuito turístico de Minas Gerais. Seu legado vai além dos diamantes; inclui filhos ilustres, como Juscelino Kubitschek, o presidente que fez o Brasil crescer "50 anos em 5". Casa do Intendente Câmara (no centro) Largo da Baiúca, na rua da Quitanda Os índios botocudos guiaram os primeiros exploradores pela região, em busca de ouro. Minas ainda não tinha revelado todo o seu fascinante mundo dourado quando, em 1714, pequeninas pedras brilhantes foram encontradas no Arraial do Tijuco. Preciosas e raras. O diamante até então só era encontrado nas Índias. Dá para compreender o rebuliço que a descoberta não causou na época. Instrumentos utilizados para aferir os diamantes (Museu do Diamante) Casa de Chica da Silva (séc. XVIII) De distante povoado o Arraial do Tijuco passou a centro do Distrito Diamantino (1730). Isso quer dizer que era governado sob um regime especial e isolado do restante das Minas Gerais. A Coroa portuguesa resolveu agir. Extinguiu a livre extração em 1740. Nasce a figura do contratador, a quem a realeza concedia o direito de explorar as lavras. Estes poucos homens tinham um enorme poder e influência; determinavam o ritmo de vida na região, da contratação de escravos ao mero posicionamento da torre de uma igreja. Estava montado o cenário para um dos mais lendários romances de Minas Gerais. Chica da Silva, dizem, era uma negra muito bonita, que fascinou o homem mais rico do Arraial do Tijuco, o comerciante de diamantes João Fernandes de Oliveira. Havia quem falasse que tinha fortuna maior que a do rei de Portugal. "A escrava que se fez rainha": assim ficou impregnada a imagem de Chica no imaginário popular. Para ela o contratador mandou construir uma casa de 21 cômodos, onde viveram provavelmente de 1755 a 1770. Tiveram 13 filhos. Apesar de rica, Chica era rejeitada pela alta sociedade. Considerada uma "devassa", não podia frequentar os templos tradicionais. Anexa à mansão de Chica foi construída uma capela, dedicada à Santa Quitéria, talvez para seu uso privativo. Há contudo quem duvide desta imagem de Chica da Silva. O casamento estável com um nobre branco e o fato de ter sido enterrada no cemitério da igreja de São Francisco de Assis (destinado aos brancos ricos) provam sua projeção e aceitação na comunidade do Tijuco. Um episódio interessante diz respeito à igreja N.Sra. do Carmo (1765), cuja construção foi patrocinada por João Fernandes. Reza a lenda que Chica exigiu - caprichosamente - que a torre fosse erguida atrás da igreja, para que o repicar dos sinos não chegassem com tanto vigor a sua casa, distante uns 200 metros. Detalhe: a Ordem N.Sra. do Carmo era composta pelas pessoas de pele branca. Pedras preciosas, junto com o ouro, deixavam os portos do Rio de Janeiro. Os navios vinham de Portugal carregados com pedras comuns, que serviam como lastro. Voltavam com ouro e diamantes. Ficavam as pedras comuns como pagamento. A mineração no Tijuco crescia. As fraudes e o contrabando nas lavras fez com que a Coroa interviesse diretamente. Isto ocorreu em 1771, quando foi decretada a "Real Extração", que se estendeu até 1835. Os contratadores foram substituídos pela figura do intendente, com seu odiado "Livro da Capa Verde", que lhe dava plenos poderes. Ficou famoso Manoel Ferreira da Câmara Bethencourt e Sá, conhecido como Intendente Câmara. Seus conhecimentos permitiram a modernização do garimpo. Foi sua também a implantação da primeira usina de ferro do Brasil. Ao contrário do Ciclo do Ouro, que declinou no final do séc. XVIII, o Ciclo do Diamante manteve sua exuberância por mais tempo. Ainda em 1831, ano em que o arraial passou a se chamar Vila Diamantina, a extração e comércio de diamante originava grandes riquezas. Teve espaço a elite mais requintada de Minas Gerais, enquanto as cidades do ouro amarguravam a exaustão de suas jazidas. Rua do Carmo Beco do Rosário Praia da cachoeira do Telésforo, no distrito de Conselheiro Mata, formada pelo assoreamento decorrente do garimpo Johann Baptist von Spix (1821) Carl Friedrich Phillip von Martius (1821) Festas, o gosto pela música e pelo teatro. Diamantina é uma cidade festiva, musical. A opulência do lugar impressionou viajantes, como Saint Hilaire, Spix, von Martius e Richard Burton. Esta situação não duraria para sempre. Em 1860, com a descoberta de fabulosas jazidas na África do Sul, o preço do diamante despencou. Começava um período de decadência, coincidindo com a diminuição das reservas diamantíferas. Diamantina foi a maior lavra de diamantes do mundo ocidental no séc. XVIII. Foram aproximadamente três milhões de quilates, uma fortuna astrônomica. Os diamantes perfeitos eram chamados de "estrelas". Por isso é fácil aceitar que o céu de Minas refletia os diamantes do Tijuco. Enquanto as vilas e arraiais auríferos eram relativamente próximos uns dos outros - Ouro Preto, Sabará e Mariana, por exemplo -, Diamantina reinava ofuscante mais ao norte. Este isolamento fez da cidade um lugar de expressões originais, mais abrangentes. Em suas casas, ruas e igrejas pode-se ler sobre uma sociedade diferente, diversificada, festiva e opulenta. Casa do Muxarabiê A arquitetura colonial diamantinense é o resultado de uma mistura entre portugueses, escravos e dos muitos aventureiros. Num passeio a pé pelo centro histórico é fácil perceber isso. Histórias fascinantes, de uma sociedade moralista, podem ser esconder por detrás dos muxarabiês. São treliças de madeira de influência árabe. Digamos que era o vidro-fumê da época. Quem estava dentro via o que se desenrolava lá fora, sem que o contrário acontecesse. Passando em frente à mansão setecentista de Chica de Silva imaginamos que ela pode estar ali, nos observando através do seu muxarabiê. O muxarabiês escondiam segredos, mentiras e um quê de falsa moralidade. Mas há na cidade inequívocos sinais de demonstração de poder. O maior deles é a Igreja N. Sra. do Carmo. Erguida entre 1760 e 1765, é ícone da ostentação. A pintura é de autoria de José Soares de Araújo, comparado a Mestre Ataíde por sua genialidade. A capela-mor tem cenas em perspectiva, as primeiras do Brasil. O órgão, confeccionado no próprio arraial (uma proeza) tem detalhes em ouro. Somente um homem tinha poder e dinheiro em Diamantina, naqueles idos de 1760: o contratador João Fernandes de Oliveira. Chica da Silva, a escrava negra que virou rainha, fez história. Amante do contratador, alterou os padrões da arquitetura religiosa, ao exigir que a torre fosse construída nos fundos, e não na frente da igreja. O repique dos sinos a "incomodava", assim como ela (Chica da Silva) "incomodava" a alta sociedade local. Pelo menos é o que diz a lenda. Continuando pelo centro histórico há a rua da Quitanda, antigo ponto de venda de quitudes. Junto com o Beco do Mota é o ponto mais fervilhante da cidade, palco da cultura e da musicalidade diamantinenses. Compõem um cenário alegremente colonial. O entorno da catedral de Santo Antônio tem preciosidades arquitetônicas. O Museu do Diamante, a Casa do Intendente Câmara e a Casa da Intendência (1733) chamam a atenção. Descendo o largo está a praça JK. Merecem destaque o Casarão do Fórum e a igreja São Francisco de Assis. Subindo a rua São Francisco, está a casa onde nasceu o ex-presidente Juscelino Kubitschek, filho mais ilustre da cidade. A arquitetura da casa é singela, do século XIX. Um pouco mais afastados estão o largo do Rosário e a rua da Glória. A igreja N.Sra. do Rosário pertencia a uma ordem de negros, assim como em outras cidades mineiras. É de 1731; mais antigo templo de Diamantina. Na rua da Glória está o cartão-postal da cidade: a Casa da Glória. São duas contruções, erguidas em épocas diferentes, ligadas por um passadiço coberto, inspirado na Ponte dos Suspiros, de Veneza (Itália). A passagem foi contruída na época em que os dois prédios pertenciam às irmãs vicentinas (1887), permitindo a travessia da rua com discrição. Bem antes disso uma das casas foi propriedade da Coroa e depois de Josefina Maria da Glória (razão do nome). Igreja N.Sra. do Carmo (no fundo a famosa torre) Mercado Municipal (séc. XIX) Detalhe de um muxarabiê Igreja São Francisco de Assis (séc. XVIII) É enorme o acervo de Diamantina, servindo de inspiração para arquitetos modernos, como Niemeyer. O Mercado Municipal, antigo pouso de tropeiros, teria inspirado o desenho do pilotis do Palácio do Alvorada, residência oficial do presidente da República, em Brasília. Por estas e muitas outras características, Diamantina é uma cidade para ser visitada a pé, sem pressa e com a sutileza de um muxarabiê. Diamantina revela muitas surpresas para o visitante. Tanto o centro histórico quanto os arredores da cidade reservam momentos de descoberta, tranquilidade e contato direto com a natureza. Falar em Diamantina é falar da pedra preciosa, da qual germinou uma sociedade pujante. Homens, história e natureza. Esta combinação perfeita traduz-se em alternativas para o visitante. O passeio começa pelo centro histórico da cidade, pelos becos que constróem um lúdico labirinto. Quem está dentro quer se perder nos detalhes. Não perca oportunidade de presenciar uma seresta, à noite, e reviver o mais autêntico "espírito diamantino". Entre nas lojas, conheça o artesanato, com seus tapetes arraiolo. Visite o casario, as igrejas, desapressadamente... O coração diamantinense pulsa mais forte na rua da Quitanda e no Beco do Mota. Catedral de Santo Antônio (1940), no centro da cidade Do cruzeiro, no morro de Santo Antônio, é possível ter uma panorâmica da cidade. Em meio à imponência desoladora da natureza, Diamantina desponta como uma jóia. Próximo ao mirante está o Caminho dos Escravos, construído a duras penas pelos negros, para dar acesso às lavras do distrito de Mendanha. Pesados blocos de pedra, cuja argamassa dá a impressão de ter sido o suor e o sangue de quem o construiu. Igreja N.Sra. do Rosário, no distrito de Curralinho Gruta do Salitre Cachoeira das Fadas, no distrito de Conselheiro Mata Vila de Biribiri (1876) Os distritos de São Gonçalo do Rio das Pedras e Milho Verde chamam a atenção. Pertencem ao Serro (cidade vizinha), mas compõem inevitavelmente a história e as belezas naturais da região de Diamantina. Há também os distritos diamantinenses de Curralinho, Conselheiro Mata (um paraíso), Extração e Mendanha. Um povo humilde, um jeito peculiar de levar a vida, um passado de glória. Minas encontra um pouso merecido nestes pequenos povoados. Muitas trilhas serpenteiam a serra, exigindo disposição e tempo dos visitantes, como a subida ao Pico do Itambé. Na estrada para os povoados de Extração e do Vau, está a gruta do Salitre. Com certeza é um passeio imperdível. É como estar numa catedral gótica majestosamente arquitetada pela natureza. Uma beleza sem par, única. Existe uma entrada estreita, protegida por altas colunas de pedra, com cerca de 60 metros. Levam ao interior, onde uma belo vão circular reside decorado por um jardim. Lá dentro está a entrada da gruta propriamente dita, a qual recomenda-se visitar apenas com a presença de um guia experiente. Neste paraíso se escondiam os negros fugidos das lavras, às vezes com uns poucos diamantes roubados e um sonho de liberdade. As cachoeiras também despontam como atrativos turísticos. Mais conhecidas são a dos Cristais, a Sentinela e a da Toca. As duas primeiras ficam na estrada que leva ao povoado de Biribiri (biri = buraco, em tupi-guarani). O lugar parece saído dos sonhos de uma criança. Tem igreja (cujo relógio foi doado pela família imperial), pequenas casinhas, escola, represa, usina... tudo limpinho. Remota ao séc. XIX (1876), fruto de uma alternativa industrial ao declínio da extração de diamantes. A vila abrigou cerca de 600 funcionários de um dos mais importantes empreendimentos têxteis no Brasil oitocentista. Quase um século depois a fábrica foi fechada, devido principalmente à desativação do ramal ferroviário de Diamantina. Biribiri é quase uma vila fantasma. A maioria das casas está vazia. Mesmo assim gera motivos de sobra para uma visita. Imperdível. |

